10/16/2014

a solidão de nos morrerem coisas vivas!

A solidão de nos morrem coisas vivas é uma treta qualquer, creio que já pareceu em títulos de livros, frases feitas e cenas, na expressão simples: morreste-me !

Os dias morrem todos dos dias entre o sol e a lua, a nossa alegria vai-se morre no seu auge no improviso de algo que só porque lhe apetece, aparece. 
vem e "fode" tudo, ou pelo menos aquele tudo que nos absorvia, que nos mimava e nos fazia sentir os vencedores, mesmo que de pequenas metas...
(estás a ver um dia perfeito, e depois tens um furo no pneu, e nenhum amigo para te atender o telefone???, é mais ou menos isso).

Às vezes acho que a vida é sempre esta merda, ficas sempre a um cm da perfeição, (que a sociedade te exige) para não te esqueceres que há vento, e coisas, e coisas e coisas para lá de ti. avisa-te que na essência mais só do que és, tens de te recordar sempre que o que ainda agora é já foi, e tens  de estar preparada para ao já a seguir, sem saber se é bom ou mau. Sinais que não te podes acomodar a um estar tudo bem, ou bem demais!

Coisas de merda, não avisam, chegam, complicam, incham-nos os olhos, embrulham-nos o estômago embargam-nos o dia... mas depois arrumadas numa gaveta serão resolvidas.

As coisas são de uma solidão menor e por vezes mais simples, pelo menos mais simples que a solidão de coisas com pessoas...

A solidão de nos morrerem coisas vivas, é um cagalhão do qual nos temos que ir livrando, pouco a pouco, com a serenidade de um tempo que passa, e um amor maior que temos de cultivar pelo que somos, e pelo bem dos que nos querem sempre.

É como estar deprimido e começar por ouvir um musica que nos leva ao pranto e a dias de olhos inchados, mas que vai melhorando. 
Quando as coisas vivas escolhem morrer para nós, a dor não é menor, é diferente. constroem-se memorias boas do que foram, do que gostamos delas, do que vivemos, e colocamos cada uma delas, na gaveta das histórias, do lembras-te.... há uma altura que nos esquecemos da voz, do olhar, do jeito do corpo, e nessa altura sabemos que morreram para os nossos dias, porque voltaram uma e outra vez e não estavam iguais, porque deixaram de nos procurar, deixaram de atender o telefone, de querer saber de nós.... escolheram um caminho onde não podemos ser mais juntas. 

Isto de ser crescido, e isto de ser mulher,  ensinou-me a fazer o luto destas mortes, parvas, tão parvas como a morte de um a familiar, num dia tens um amigo, no outro ele escolheu morrer para ti. (as amigas, são as melhores a escolher morrer-nos). A crueldade que isto encerra, senhor, nunca estamos preparados para a morte, e para estas mortes vivas também não... 
Andamos em luta, perguntamos a nós se fomos nós, o que fizemos, e depois percebemos que nós somos apenas enlutados sem razão. 
Este luto nem sequer é das relações do domínio do amor carnal, mas daquele amor que achamos que temos e têm por nós, os amigos, a família que escolhemos, aqueles que são ou foram em alguma altura parte do nosso melhor...
Ser crescido, ser mulher, ensina a aceitar... a lembrar e conservar as melhores memórias, a manter aquele gostar pelo que as pessoas foram na nossa vida, e aceitar essencialmente que o que são agora. são um  não é nosso, nem do nosso interesse, porque para o tempo que partilhámos esse amigo escolheu morrer. Não podemos nós escolher a dor deste luto, porque a vida, os caminhos, a vontade de quem não quer estar, ser ou ficar  não é uma  coisa morta, mas outra forma de vida, nós seguimos a nossa, certos de que os caminhos são como são e serão o que tiverem de ser. 
O tempo passa, deixamos o luto, vivemos mais, o caminho continua, e da solidão de nos morrerem coisas vivas, ficam as lembranças, afinal são sempre elas que ficam depois da morte. 

Já agora, só me morreste porque quiseste... 
Já me esquecia, sou católica e acredito na ressurreição... afinal as vidas são feitas de portas abertas para aqueles que querem estar! 





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