A
solidão de nos morrem coisas vivas é uma treta qualquer, creio que já pareceu em
títulos de livros, frases feitas e cenas, na expressão simples: morreste-me !
Os
dias morrem todos dos dias entre o sol e a lua, a nossa alegria vai-se morre no
seu auge no improviso de algo que só porque lhe apetece, aparece.
vem
e "fode" tudo, ou pelo menos aquele tudo que nos absorvia, que nos
mimava e nos fazia sentir os vencedores, mesmo que de pequenas metas...
(estás
a ver um dia perfeito, e depois tens um furo no pneu, e nenhum amigo para te
atender o telefone???, é mais ou menos isso).
Às
vezes acho que a vida é sempre esta merda, ficas sempre a um cm da perfeição,
(que a sociedade te exige) para não te esqueceres que há vento, e coisas, e
coisas e coisas para lá de ti. avisa-te que na essência mais só do que és, tens
de te recordar sempre que o que ainda agora é já foi, e tens de estar
preparada para ao já a seguir, sem saber se é bom ou mau. Sinais que não te
podes acomodar a um estar tudo bem, ou bem demais!
Coisas
de merda, não avisam, chegam, complicam, incham-nos os olhos, embrulham-nos o
estômago embargam-nos o dia... mas depois arrumadas numa gaveta serão
resolvidas.
As
coisas são de uma solidão menor e por vezes mais simples, pelo menos mais
simples que a solidão de coisas com pessoas...
A
solidão de nos morrerem coisas vivas, é um cagalhão do qual nos temos que ir
livrando, pouco a pouco, com a serenidade de um tempo que passa, e um amor
maior que temos de cultivar pelo que somos, e pelo bem dos que nos querem
sempre.
É
como estar deprimido e começar por ouvir um musica que nos leva ao pranto e a
dias de olhos inchados, mas que vai melhorando.
Quando
as coisas vivas escolhem morrer para nós, a dor não é menor, é diferente.
constroem-se memorias boas do que foram, do que gostamos delas, do que vivemos,
e colocamos cada uma delas, na gaveta das histórias, do lembras-te.... há uma
altura que nos esquecemos da voz, do olhar, do jeito do corpo, e nessa altura
sabemos que morreram para os nossos dias, porque voltaram uma e outra vez e não
estavam iguais, porque deixaram de nos procurar, deixaram de atender o
telefone, de querer saber de nós.... escolheram um caminho onde não podemos ser
mais juntas.
Isto
de ser crescido, e isto de ser mulher, ensinou-me a fazer o luto destas
mortes, parvas, tão parvas como a morte de um a familiar, num dia tens um
amigo, no outro ele escolheu morrer para ti. (as amigas, são as melhores a
escolher morrer-nos). A crueldade que isto encerra, senhor, nunca estamos
preparados para a morte, e para estas mortes vivas também não...
Andamos
em luta, perguntamos a nós se fomos nós, o que fizemos, e depois percebemos que
nós somos apenas enlutados sem razão.
Este
luto nem sequer é das relações do domínio do amor carnal, mas daquele amor que
achamos que temos e têm por nós, os amigos, a família que escolhemos, aqueles
que são ou foram em alguma altura parte do nosso melhor...
Ser
crescido, ser mulher, ensina a aceitar... a lembrar e conservar as melhores
memórias, a manter aquele gostar pelo que as pessoas foram na nossa vida, e
aceitar essencialmente que o que são agora. são um não é nosso, nem do
nosso interesse, porque para o tempo que partilhámos esse amigo escolheu
morrer. Não podemos nós escolher a dor deste luto, porque a vida, os caminhos,
a vontade de quem não quer estar, ser ou ficar não é uma coisa morta,
mas outra forma de vida, nós seguimos a nossa, certos de que os caminhos são
como são e serão o que tiverem de ser.
O
tempo passa, deixamos o luto, vivemos mais, o caminho continua, e da solidão de
nos morrerem coisas vivas, ficam as lembranças, afinal são sempre elas que
ficam depois da morte.
Já
agora, só me morreste porque quiseste...
Já
me esquecia, sou católica e acredito na ressurreição... afinal as vidas são
feitas de portas abertas para aqueles que querem estar!

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